Abri os olhos e olhei o relógio de
cabeceira para ver as horas. Eram 5:00 horas da manhã. Levantei-me e fui ao
banheiro. De repente, ouço a campainha tocar. Saio às pressas e destranco
a fechadura da porta, ao abri-la, vejo um homem caído na soleira. Levo um
grande susto e meio apavorado olho em torno, mas não há ninguém no corredor.
Abaixo-me e com os dedos trêmulos toco no homem. Sinto que seu corpo está frio
e rígido. Percebo que é um cadáver e corro angustiado para o telefone. Com
grande dificuldade e com as mãos trêmulas tento discar o número da central de
polícia.
- Delegacia de polícia, bom dia!
- Policial, venha até minha casa.
- O que aconteceu?
- Há um cadáver na soleira de casa.
- Quem está falando?
- Ticio
Silva.
- Seu endereço, senhor?
- Rua da Figueira, 113. Jardim das
Nações.
- Senhor, seu telefone, por favor?
- 9851-3098
Neste momento, ouço o barulho da
sirene do carro da polícia que se aproxima de minha casa, vejo o delegado
descer com sua equipe do carro, ele é alto,gordo, aparenta ter uns trinta e
cinco anos, bigodudo e com um grande olhar de superioridade ,junto com eles
percebo que há muitos repórteres, tirando foto do falecido e uma grande
multidão de curiosos que se aproximam. Minha casa está completamente cercada.
- Quem é o dono da casa?
- Sou eu, Sr. Delegado .
- Qual o seu nome?
- Tício da Silva.
- O Sr. conhecia a vítima que foi
assassinado?
- Não, senhor.
- Já o viu pelas ruas, em algum lugar
na cidade?
- Não.
- O senhor tem alguns inimigos?
- Que eu saiba não.
- Quantas pessoas que moram na casa?
- Só eu senhor.
- Ouviu algum barulho, algum tiro
ontem?
- Não, não ouvi nada.
- O Senhor não acha estranho, um
cadáver ser jogado em sua porta?
- Não tenho nada a ver com isso,
delegado, alguém deixou o corpo aí e se mandou, retruquei nervoso.
- Sr. Tício, o senhor autoriza vistoriar
sua casa, preciso encontrar alguma pista?
- Autorizo, sou inocente, Sr.
Delegado,confie em mim.
O delegado ordenou aos policiais que
adentrassem a minha casa a procura de vestígios e outras provas que
possam estar ligadas ao crime.
- Guardas, revistem toda a casa.
E o delegado continuava
incansavelmente o interrogatório, queria solucionar o caso e culpava-me
pelo crime.
- O senhor não acha estranho um corpo
ser encontrado na porta de sua casa, conte a verdade, insiste o delegado
impaciente.
- Ué, alguém pode ter matado e jogado
o corpo na porta de minha casa para incriminar-me, mas não tenho nada a ver com
isso, não. Isso é armação, alguém cometeu o crime e está tentando jogar a culpa
em cima de mim, pois tocaram a campainha e quando abri, encontrei o corpo.
- Que horas que apertaram a
campainha?
- Eram 5:15 da manhã.
- Quanto tempo o senhor mora nesta
casa?
- Faz dois anos.
- Conhece a vizinhança?
- Não senhor, ainda não deu tempo
para fazer amizades, mas sempre que vejo um vizinho cumprimento-o.
- Qual é seu serviço?
- Sou aposentado e cato material
reciclado pelas ruas.
De repente, o soldado grita lá no
fundo:
- Delegado, há marcas de sangue na
camisa, e tem muita bagunça espalhada pelos cômodos, roupas sujas jogadas no
canto, há várias fitas de filme, DVDs jogados e um quarto cheio de sujeiras,
parece material reciclável, venha até aqui examinar.
- Nossa! Que bagunça! Que
nojeira! O senhor está preso, até as conclusões do caso. Então, é melhorar ir
contando a verdade do que aconteceu. E esta camisa toda cheia de sangue?
- Sou inocente, Senhor, não matei
ninguém, eu cortei o dedo com a faca fazendo minha comida ontem à noite.
- O Senhor será preso se não começar
a contar realmente o que aconteceu, diz o delegado com prepotência.
- E quem é o senhor para me
prender? - retruquei.
- Sou uma autoridade policial.
- Pode ser, mas não tem o direito de
ficar me acusando o tempo todo, humilhando-me como se fosse o culpado. Afinal,
não matei ninguém e nem fui pego em flagrante.
- Você está preso por desobediência à
autoridade, por ser mentiroso.
- Respeite-me, senhor delegado, olha
que sou muito mais velho do que senhor.
Neste momento o telefone celular do
delegado toca:
- Alô, delegado Malaquias.
- Senhor, há novidades do crime que
está investigando, temos uma testemunha que precisa ser ouvida, ela diz que
sabe quem matou o rapaz e presenciou a cena do crime.
- Está bem, irei até aí
imediatamente.
- Soldados, apreendem a camisa
com manchas de sangue e outros materiais suspeitos, eles precisam passar
pela perícia.
Fui algemado e quando sai lá fora, vi
uma grande multidão de pessoas curiosas que aguardavam a minha saída. Até
escutei um grito forte dizendo:
- Velho assassino!Velho assassino!
Prenda-o! Mate-o!
Na delegacia fiquei aguardando e
esperando até ser ouvido novamente pelo delegado.
Depois, de ter ouvido a testemunha, o
delegado ficou sabendo que o homem que foi morto estava envolvido com drogas e
gangues, ele era muito conhecido na vizinhança, devido a vários roubos que
cometera, porém nunca tinha sido preso, os vizinhos tinham muito medo de
denunciá-lo, porque julgava vingança de matar a todos de quem mexesse com
ele.
O delegado ordenou aos soldados que
me soltasse e na última conversa que tive com ele, pude perceber o ar de pouco
caso, ele nem olhou em meus olhos, nem pediu desculpa pelo erro cometido, me
analisou com a cabeça baixa e um ar de pouco caso e desprezo.
Saí da cadeia cabisbaixo e
desfalecido, não conseguia andar, parecia que minhas pernas não tinham mais
forças para se movimentar.Caminhei muito pensativo para casa, de como
somos analisados e julgados por pessoas que não nos conhecem, como este mundo
é injusto e desumano, principalmente com os mais pobres e velhos. Hoje,
fui tratado como um bandido, um criminoso, um lixo, afinal sou mais um catador
de lixo, mas mereço respeito. Sou um cidadão honesto, eu sei ler e escrever e
pago as minhas contas,no entanto, a justiça divina não falhou e
estou livre novamente.
Colaboração e Autoria: Ilda Lucia Alves Ferreira
Matsui